Cenário global e implicações para a América Latina Dezembro de 2025

30/01/2026

Principal Asset Management

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O cenário global segue favorável para a América Latina. Em relação ao crescimento dos Estados Unidos, apesar de ventos contrários inesperados associados ao aumento de tarifas, a economia conseguiu evitar uma recessão e manteve um ritmo positivo no terceiro trimestre. No entanto, o mercado de trabalho tem apresentado sinais claros de desaceleração, com os ganhos recentes de atividade não se traduzindo em criação de empregos. Esse arrefecimento é incomum fora de períodos recessivos ou de recuperação inicial, mas, até o momento, o ajuste tem ocorrido de forma gradual, com enfraquecimento das contratações enquanto as taxas de demissão permanecem baixas.

Com o crescimento do PIB ainda robusto, a inflação deve permanecer acima da meta. Ainda assim, forças desinflacionárias — especialmente a contínua moderação dos preços imobiliários — e o caráter temporário dos aumentos de preços associados às tarifas devem contribuir para uma desaceleração gradual da inflação cheia. Além disso, o equilíbrio atípico do mercado de trabalho pode permitir uma moderação do crescimento salarial, reduzindo o risco de uma retomada inflacionária impulsionada por salários no curto prazo.

Nesse contexto, após realizar um novo corte de juros em dezembro, o Federal Reserve tende a adotar uma postura cautelosa e dependente dos dados nas próximas reuniões. A perspectiva de uma economia americana que evita a recessão e, ao mesmo tempo, mantém espaço para cortes adicionais de juros é positiva para os mercados emergentes. Para os países da América Latina, embora a região enfrente tarifas mais elevadas, os padrões de comércio permanecem estáveis até o momento e o crescimento segue resiliente. A melhor notícia, no entanto, está relacionada à inflação e à política monetária: com a inflação corrente desacelerando e as moedas se apreciando em função de um dólar mais fraco, os anúncios tarifários podem se mostrar desinflacionários para a região, ampliando o espaço para cortes de juros pelos bancos centrais. Por fim, apesar do impacto limitado das tarifas e da expectativa de juros mais baixos, o debate eleitoral local ganhará relevância nos próximos meses e pode trazer maior volatilidade para a região.

Brasil

Atividade Econômica

Dezembro de 2025

No âmbito da atividade econômica, os sinais de desaceleração seguem bastante evidentes, ainda que de forma gradual. O PIB do terceiro trimestre confirmou a perda de fôlego esperada, registrando alta de 0,1% na comparação trimestral, ligeiramente abaixo das expectativas. A decomposição do dado reforça esse diagnóstico. Pelo lado da demanda, o consumo das famílias avançou apenas 0,1%, abaixo da estimativa de 0,5%. Pelo lado da oferta, o setor de serviços ficou praticamente estável no terceiro trimestre (0,1%), enquanto a indústria (0,8%) e a agropecuária (0,4%) compensaram parcialmente a desaceleração nos segmentos mais ligados à demanda doméstica.

Por outro lado, a força do mercado de trabalho continua a sugerir que essa desaceleração deve permanecer gradual, com a taxa de desemprego ainda próxima de mínimas históricas. Como resultado, as expectativas de crescimento pouco se alteraram ao longo do mês. A mediana das projeções de mercado segue apontando para um crescimento acima de 2% em 2025, seguido por uma desaceleração gradual em 2026.

Inflação e Política Monetária

Dezembro de 2025

No campo inflacionário, os sinais permanecem favoráveis no curto prazo. O IPCA de novembro avançou 0,18%, ligeiramente abaixo das expectativas. Em termos acumulados em 12 meses, a inflação cheia atingiu 4,5%, recuando em relação aos 4,7% registrados em outubro. Além do comportamento benigno da taxa de câmbio, a deflação prolongada dos preços de alimentos segue como um fator relevante por trás das surpresas baixistas recentes.

No que diz respeito à inflação subjacente, as notícias também são positivas. A inflação de bens industriais desacelerou para 3,3% em termos anuais, enquanto a inflação de serviços, embora ainda elevada, recuou gradualmente para 6,0%. Mais importante, com um balanço de riscos mais favorável para a inflação corrente, as expectativas inflacionárias continuam cedendo. A projeção mediana para 2025 recuou para 4,4%, patamar compatível com o intervalo de tolerância da meta de inflação (1,5% a 4,5%).

Apesar desse ambiente benigno no curto prazo, o Banco Central segue adotando um tom cauteloso em relação aos próximos passos. Na decisão mais recente, conforme amplamente esperado, a taxa Selic foi mantida em 15,0% ao ano. Mais relevante, na comunicação prospectiva, a autoridade monetária promoveu apenas ajustes marginais, reiterando a necessidade de manter os juros em patamar restritivo por um período prolongado, ao mesmo tempo em que preserva flexibilidade para eventuais ajustes adicionais. Em suma, o Banco Central manteve uma postura cautelosa, sem sinalizar claramente o momento de início do ciclo de flexibilização monetária. Ainda assim, declarações do presidente da instituição, Gabriel Galípolo, sugerem uma abordagem dependente dos dados, sem compromisso com um curso de ação pré-definido, mantendo aberta a possibilidade de cortes de juros no início do próximo ano, condicionados à evolução do cenário econômico.

Contas Fiscais e Cenário Político

Dezembro de 2025

No campo político, a atenção se volta cada vez mais para as eleições de 2026. Embora ainda relativamente distantes, as discussões sobre uma possível alternância de poder tornam-se progressivamente mais relevantes para os mercados.

Do lado do governo, os desenvolvimentos recentes foram majoritariamente negativos. Os índices de aprovação voltaram a se deteriorar, com a desaprovação da administração do presidente Lula atingindo 50%, segundo a pesquisa Genial/Quaest. Apesar de ainda abaixo do pico observado em abril, o dado sinaliza uma interrupção da melhora registrada nos últimos meses.

Por sua vez, o bloco de direita segue fragmentado e sem uma liderança clara. Os eventos recentes envolvendo o lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro adicionam uma camada adicional de incerteza ao cenário eleitoral. O anúncio surpreendeu os mercados pelo timing, em um momento em que a candidatura de Tarcísio de Freitas parecia se consolidar. É possível que esse movimento seja apenas uma estratégia da família Bolsonaro para avançar com a pauta da anistia no Congresso. Ainda assim, independentemente da motivação, a candidatura inesperada pode persistir nos próximos meses, introduzindo uma fonte adicional de incerteza. Esse cenário não elimina a possibilidade de alternância política, mas reforça a percepção de um caminho eleitoral mais turbulento.

Chile

Atividade Econômica

Dezembro de 2025

O IMACEC de outubro surpreendeu levemente para cima, com crescimento de 2,2% na comparação anual, acima do consenso de mercado de 2,0%. Na série dessazonalizada, a atividade avançou 0,7% na margem e 2,5% em termos anuais, sinalizando melhora do dinamismo no curto prazo.

O crescimento foi disseminado entre os setores. Mineração e indústria lideraram os ganhos mensais, ambos com alta de 1,4%, enquanto o comércio segue se destacando na comparação anual, com expansão de 8,1%, permanecendo como o principal motor da atividade não mineradora. Após divulgações setoriais mistas na semana anterior, que haviam levantado questionamentos sobre a dinâmica agregada do crescimento, o dado do IMACEC confirma a recuperação após o impacto negativo associado à mineração no terceiro trimestre.

De forma geral, os dados reforçam nossa visão de crescimento próximo a 2,5% no ano, com riscos modestamente inclinados para cima, sem alterar o viés atual da política monetária. Destaca-se, ainda, o crescimento do IMACEC não minerador, de 3,0% em termos anuais e 0,6% na margem, evidenciando uma demanda subjacente resiliente além da volatilidade do setor de mineração, especialmente do cobre.

Inflação e Política Monetária

Dezembro de 2025

O IPC de novembro registrou alta de 0,3% na comparação mensal, em linha com as expectativas de mercado, mantendo a inflação anual em 3,4%. As medidas de inflação subjacente apresentaram sinais mistos. O indicador que exclui componentes voláteis avançou 0,2% no mês e acelerou para 3,7% em 12 meses. Já a medida que exclui alimentos e energia, frequentemente considerada mais estável, subiu 0,4% na margem, mas recuou para 2,9% em termos anuais.

Em conjunto, os dados seguem apontando para um processo de desinflação estável, consistente com a convergência gradual da inflação em direção à meta de 3% ao longo dos próximos trimestres, em linha com as expectativas de mercado e com o cenário-base do Banco Central. Essa leitura reforça as expectativas de um corte de 25 pontos-base na taxa de juros em dezembro, seguido por uma redução adicional de 25 pontos-base entre março e abril do próximo ano. As expectativas de inflação para dezembro permanecem próximas de -0,1% na margem, indicando uma inflação ao final de 2025 em torno de 3,6%, compatível com um ciclo de flexibilização gradual e ordenado.

Contas Fiscais e Cenário Político

Dezembro de 2025

O segundo turno presidencial realizado em 14 de dezembro resultou em uma vitória expressiva de José Antonio Kast, com 58,2% dos votos, frente a 41,8% obtidos por Jeannette Jara. O resultado esteve amplamente alinhado às expectativas do mercado e confirma uma guinada em direção a um ambiente político mais orientado ao mercado. Assim, a reação imediata dos ativos tende a ser limitada, dado que parte relevante do ajuste pró-mercado já havia ocorrido antes da votação.

Ainda assim, o desfecho reduz de forma material a incerteza política e reforça as expectativas de maior previsibilidade de políticas públicas, continuidade institucional e disciplina macroeconômica, fatores que sustentam a confiança e o planejamento de médio prazo. Olhando adiante, a atenção dos investidores se concentra na agenda de reformas e nas prioridades econômicas que poderão ganhar forma a partir de 2026. No curto prazo, espera-se uma abordagem pragmática e concentrada nos primeiros 90 dias de governo, com foco em ajustes regulatórios e administrativos que possam ser implementados pelo Executivo sem necessidade de aprovação do Congresso. Embora essas medidas devam ser de escopo limitado e não caracterizadas como grandes reformas estruturais, seu objetivo é demonstrar capacidade de gestão e oferecer respostas concretas às demandas sociais e econômicas mais urgentes.

Em um horizonte mais longo, a plataforma de Kast enfatiza consolidação fiscal, postura pró-investimento e esforços para simplificar regulações e processos de licenciamento, especialmente em setores intensivos em capital, como mineração, energia e infraestrutura. Apesar da composição fragmentada do Congresso limitar o ritmo e a abrangência das reformas, o mercado enxerga espaço para avanços incrementais voltados à melhoria do ambiente de investimentos, à restauração da confiança do setor privado e ao aumento do crescimento potencial. Nesse contexto, a expectativa de reformas graduais e pragmáticas sustenta uma visão cautelosamente construtiva para a atividade econômica e as condições financeiras ao longo do próximo ano.

México

Atividade Econômica

Dezembro de 2025

Os dados mais recentes confirmaram nossa expectativa de que a atividade econômica permanecerá fraca no encerramento do ano, ainda que com sinais incipientes de estabilização. A produção industrial recuou 0,4% na comparação anual em outubro, queda mais moderada que o consenso (-2,4%), enquanto a atividade registrou sua primeira expansão mensal em cinco meses, com alta de 0,7%.

A recuperação sequencial foi impulsionada principalmente pela construção e pela mineração, esta última beneficiada pelo aumento da produção de petróleo e gás, compensando parcialmente a persistente fraqueza da indústria de transformação, especialmente no setor automotivo, ainda afetado pela demanda externa mais fraca e pela incerteza em torno do comércio global.

A dinâmica do mercado de trabalho segue oferecendo algum suporte à demanda doméstica. A criação de empregos formais foi moderada em novembro, com cerca de 49 mil novas vagas, levando o nível de emprego a um novo recorde histórico. O crescimento do emprego no acumulado do ano permanece sólido, em 2,7%, ajudando a sustentar a renda das famílias e a mitigar a desaceleração do consumo. No entanto, o descompasso entre um mercado de trabalho resiliente e a fraqueza persistente do investimento sugere que a recuperação permanece desigual e frágil. De modo geral, apesar de uma melhora marginal nos dados recentes, seguimos projetando um final de ano fraco, mantendo nossa estimativa de crescimento do PIB em 0,5% em 2025, com a demanda externa como principal vetor de sustentação.

Inflação e Política Monetária

Dezembro de 2025

A inflação no México surpreendeu para cima em novembro, sinalizando um revés temporário no processo de desinflação. A inflação cheia acelerou para 3,8% em termos anuais, ante 3,6% em outubro, com alta mensal de 0,66%, acima das expectativas. A surpresa foi disseminada, com a inflação subjacente avançando para 4,43%, refletindo novas pressões nos serviços, enquanto a inflação não subjacente subiu para 1,73%, impulsionada por preços agrícolas mais elevados e aumentos em tarifas reguladas.

Apesar dessa retomada, a inflação não subjacente segue bem abaixo de sua média histórica, limitando sua contribuição para os riscos inflacionários de médio prazo. O setor de serviços permanece como a principal fonte de preocupação, com reajustes em categorias como “outros serviços” indicando pressões subjacentes mais persistentes do que o anteriormente esperado, reforçadas por condições ainda sólidas no mercado de trabalho e crescimento real dos salários. Essas dinâmicas sugerem que o processo de desinflação pode permanecer irregular e sujeito a reversões temporárias.

Olhando adiante, embora os dados recentes adicionem incerteza ao cenário inflacionário para 2026, é pouco provável que impeçam o afrouxamento monetário no curto prazo. A atividade econômica fraca, um peso forte e a inflação cheia abaixo de 4% devem permitir que o Banco Central do México realize um novo corte de juros na próxima reunião. No entanto, o caminho subsequente torna-se menos claro. Caso as pressões na inflação subjacente persistam ou se intensifiquem, o espaço para cortes adicionais se reduzirá, exigindo uma postura mais cautelosa. A evolução da inflação de serviços e a normalização gradual dos componentes não subjacentes serão determinantes para avaliar a sustentabilidade do ciclo de flexibilização e seus impactos sobre os mercados locais.

Política Fiscal e Cenário Político

Dezembro de 2025

Os dados fiscais recentes reforçam o compromisso do governo com uma consolidação gradual. Os números de outubro apontam para um déficit ainda elevado, porém em processo de estabilização, refletindo uma dinâmica de receitas forte, ainda que moderando, em meio a uma arrecadação tributária agressiva, combinada com maior controle dos gastos. A postura fiscal segue se afastando de um viés expansionista, com ajuste mais visível no investimento público, enquanto os gastos sociais permanecem amplamente preservados.

Esse processo de consolidação deverá ser moderado em 2026, o que tende a aliviar parte da pressão negativa sobre a atividade, ao mesmo tempo em que sustenta a estabilidade macroeconômica e a credibilidade fiscal. No campo externo e político, a política comercial e as dinâmicas do USMCA ganham relevância. Em dezembro, o México aprovou novas tarifas de importação sobre bens provenientes de países sem acordo de livre comércio, com o objetivo de proteger a indústria doméstica e corrigir distorções comerciais, com impacto inflacionário positivo, porém limitado. Paralelamente, as discussões sobre a revisão do USMCA se intensificam, com o México reiterando seu compromisso com o acordo trilateral, apesar de eventuais discursos bilaterais vindos dos Estados Unidos. Nosso cenário-base permanece sendo o de um acordo que preserve os principais pilares do USMCA até o final de 2026, ainda que com elevada incerteza e potencial volatilidade ao longo do processo de negociação.

Tradução feita por inteligência artificial (IA)