Cenário global e implicações para a América Latina Outubro de 2025

30/01/2026

Principal Asset Management

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Cenário global e implicações para a América Latina

Conforme amplamente esperado, em sua reunião de setembro, o Federal Reserve retomou o ciclo de flexibilização monetária após nove meses de manutenção das taxas de juros. O Fed reduziu a taxa dos Fed Funds em 0,25 p.p., para o intervalo entre 4,0% e 4,25%. Apesar de a inflação ainda permanecer acima da meta, a decisão reforça que a autoridade monetária passou a atribuir maior peso aos riscos de desaceleração do mercado de trabalho, diante de dados mais fracos e de uma perda de dinamismo observada nos últimos meses. Para os próximos meses, embora o presidente do Fed tenha caracterizado a decisão como um corte de gerenciamento de riscos, o gráfico de pontos (dot plot) atualmente indica a possibilidade de mais dois cortes ainda neste ano. Além disso, apesar da paralisação parcial do governo dos Estados Unidos, os dados mais recentes do mercado de trabalho privado continuam sinalizando enfraquecimento.

A perspectiva de uma economia norte-americana evitando recessão, mas ainda com espaço para cortes adicionais de juros, é positiva para os mercados emergentes. No caso da América Latina, embora a região enfrente tarifas mais elevadas, os padrões de comércio permanecem, até o momento, relativamente estáveis, e o crescimento segue resiliente. A principal notícia positiva, contudo, está relacionada à inflação e à política monetária. Com a inflação corrente em desaceleração e as moedas locais se apreciando em um contexto de dólar mais fraco, os anúncios de tarifas podem se mostrar desinflacionários para a região, abrindo maior espaço para cortes de juros pelos bancos centrais.

Por fim, apesar do impacto ainda limitado das tarifas e da expectativa de juros mais baixos, as discussões eleitorais locais tendem a ganhar relevância nos próximos meses, o que pode trazer maior volatilidade para a região em um período de aumento da incerteza política.

Brasil

Atividade econômica

No âmbito da atividade, os sinais de desaceleração tornaram-se cada vez mais evidentes. O IBC-Br registrou três meses consecutivos de contração, com queda de 0,6% na média móvel trimestral. Além disso, indicadores coincidentes reforçam essa tendência, com níveis de confiança nos patamares mais baixos desde o início de 2023 e dados de crédito mostrando uma combinação de menor concessão de empréstimos e aumento da inadimplência. O mercado de trabalho, por sua vez, permanece bastante apertado, com a taxa de desemprego em níveis historicamente baixos, embora sinais recentes de estabilização tenham surgido. Em agosto, a taxa de desemprego manteve-se em 5,6%, resultado explicado tanto pela menor taxa de participação quanto pela redução do número de ocupados. De forma mais relevante, os dados do CAGED também apontam para uma moderação no ritmo de criação de empregos formais — de mais de 100 mil vagas nos meses anteriores para menos de 50 mil, após ajuste sazonal. Embora esse ambiente ainda não justifique revisões negativas para o PIB, ele confirma que a política monetária começa a pesar sobre a atividade econômica.

Inflação e política monetária

No que diz respeito à inflação, o IPCA de setembro avançou 0,48%, levemente abaixo da nossa projeção (0,51%) e do consenso de mercado (0,52%). A reversão em relação a agosto (-0,11%) foi amplamente explicada pela normalização das tarifas de energia elétrica após o fim do bônus de Itaipu, que havia reduzido temporariamente as contas no mês anterior. Do ponto de vista qualitativo, o principal destaque foi a forte desaceleração dos serviços subjacentes, que passaram de 0,34% para 0,03% no mês. É verdade que parte relevante dessa melhora reflete a queda acentuada de itens voláteis, como o seguro de veículos (-5,98% m/m). Ainda assim, outras medidas de núcleo mais relacionadas ao mercado de trabalho também mostraram alguma acomodação em relação ao mês anterior.

Em síntese, o resultado reforça um ambiente inflacionário benigno no curto prazo, sustentado tanto por leituras correntes mais favoráveis quanto pela apreciação cambial. Mantemos nossa projeção de IPCA para 2025 em 5,0%, com viés de baixa. Esse conjunto de fatores fortalece o debate em torno do início do ciclo de cortes de juros. No entanto, a comunicação do Banco Central segue firme em manter um tom cauteloso quanto aos próximos passos, evitando especulações sobre um início precoce da flexibilização. Na decisão mais recente, a autoridade reiterou a mensagem de manutenção da política monetária em território restritivo por um período prolongado, sem dar ênfase à recente desaceleração da atividade ou à queda das expectativas de inflação. Mais importante, o Banco Central manteve sua projeção de inflação para o horizonte relevante em 3,4%, estabilidade justificada por uma revisão para cima das hipóteses de hiato do produto. Esses elementos reforçam a estratégia atual do Copom de monitorar os sinais de atividade, ao mesmo tempo em que busca consolidar a credibilidade e o processo de reancoragem das expectativas.

Contas fiscais e cenário político

No campo político, a atenção já começa a se voltar para a corrida presidencial de 2026. Embora ainda relativamente distante, a possibilidade de mudança de liderança aumenta a relevância do tema para os mercados.

Do lado do governo, medidas como a elevação da faixa de isenção do imposto de renda para R$ 5.000 reforçam a tentativa do presidente Lula de consolidar ganhos de popularidade antes do próximo ano. Ainda assim, permanecemos céticos quanto à sustentabilidade dessa melhora, diante das dificuldades estruturais da administração em dialogar com a classe média e do crescente afastamento de partidos de centro-direita.

Na oposição, a definição de um candidato segue condicionada ao apoio do ex-presidente Jair Bolsonaro. O nome de Tarcísio de Freitas voltou a ganhar viabilidade, apoiado por setores centristas e alianças políticas relevantes, embora sua candidatura ainda dependa fortemente do endosso da família Bolsonaro.

Em meio ao aumento das expectativas em torno das eleições, o andamento da Medida Provisória 1303 já ilustra esse ambiente. A proposta — que buscava elevar as receitas do governo nos próximos anos ao atingir pontos sensíveis de determinados setores — foi rejeitada pelo Congresso nas últimas semanas.

Por um lado, esse episódio evidencia a fragilidade do governo dentro de sua própria base parlamentar, o que limita a capacidade de avançar com medidas populistas mais agressivas. Por outro, adiciona incerteza fiscal no curto prazo, impondo desafios adicionais ao cumprimento das metas fiscais do próximo ano.

Chile

Atividade econômica

O índice de atividade econômica apresentou uma desaceleração significativa em agosto, com o crescimento interanual recuando de 1,8% para 0,5%, além de uma contração mensal de 0,7% em termos dessazonalizados. A indústria do cobre foi o principal fator por trás desse resultado fraco, uma vez que a paralisação da mina El Teniente na primeira parte de agosto teve impacto relevante sobre a produção. Além disso, os serviços financeiros também registraram desempenho fraco no mês. O comércio e a indústria de transformação apresentaram resultados positivos, compensando parcialmente o desempenho da economia em agosto. Ainda assim, a atividade não mineradora também desacelerou, de 2,5% para 1,7% na comparação interanual, com queda mensal de 0,5% em termos ajustados sazonalmente.

Esses números ficaram abaixo das estimativas de mercado em todos os casos, uma vez que se esperava desaceleração, mas não nessa magnitude. Setembro deve apresentar uma recuperação relevante, à medida que a atividade mineradora retornou em grande parte à normalidade, além de algum impulso adicional decorrente dos feriados nacionais, que tradicionalmente sustentam o consumo, ainda que parcialmente compensados pelo evento Cyber Day de outubro. Em linhas gerais, esses dados ainda não são suficientes para alterar as expectativas de crescimento para este ano, que seguem em torno de 2,4%, embora sinalizem cautela.

Inflação e política monetária

Os dados de inflação de setembro mostraram uma alta mensal de 0,4% no nível geral de preços, elevando a taxa em 12 meses de 4,0% para 4,4%, em linha com as expectativas de mercado. Os principais aumentos vieram da divisão de alimentos e bebidas não alcoólicas, em um mês no qual as celebrações das festas nacionais influenciaram diretamente o comportamento dos preços desses produtos. O indicador subjacente, que exclui componentes voláteis, também registrou variação mensal de 0,4%, mantendo a taxa em 12 meses em 3,9%, inalterada em relação a agosto.

Para outubro, espera-se uma leitura mais moderada, à medida que esses aumentos se normalizam e alguns preços recuam após as promoções do Cyber Day. De forma geral, a inflação permanece consistente com as projeções do Banco Central apresentadas no mais recente Relatório de Política Monetária, indicando que as pressões de preços seguem relativamente elevadas, mas não devem alterar o atual cenário de cortes de juros. O mercado antecipa um corte de 25 pontos-base em dezembro, seguido de outro no início do próximo ano, mantendo a taxa de política monetária próxima ao limite superior do intervalo neutro.

Contas fiscais e cenário político

A dívida pública do Chile atingiu um recorde de 43% do PIB em meados de 2025, impulsionada por maiores gastos públicos, receitas mais fracas e aumento do endividamento nos mercados doméstico e internacional. Em resposta, o Ministério da Fazenda tem buscado alongar o perfil de vencimentos da dívida para reduzir pressões de refinanciamento, embora essa estratégia tenha vindo acompanhada de custos de juros mais elevados. Apesar de manter uma posição fiscal relativamente sólida dentro da região, o ritmo de crescimento da dívida levanta preocupações quanto à sustentabilidade de médio prazo, caso os planos de consolidação fiscal do governo para 2026 não sejam plenamente implementados. Enquanto isso, os fundos soberanos do país, que juntos somam cerca de US$ 22 bilhões, oferecem alguma proteção contra choques externos, mas permanecem insuficientes para compensar um déficit estrutural prolongado.

México

Atividade econômica

Os dados iniciais do terceiro trimestre de 2025 confirmam que a dinâmica econômica fraca se estendeu para a segunda metade do ano. Em julho, a demanda interna deteriorou-se de forma relevante, com o consumo privado recuando 0,14% em termos interanuais e o investimento fixo bruto contraindo-se expressivos 7,52%. O investimento segue como o principal fator de arrasto da atividade, acumulando oito meses consecutivos de queda, refletindo a incerteza persistente em torno do comércio global e os efeitos da consolidação fiscal. A fraqueza da atividade também é evidente na dinâmica do crédito. O crédito bancário desacelerou de forma significativa nos últimos meses, impulsionado principalmente pela redução do crédito às empresas. Embora o crédito às famílias permaneça elevado e possa ajudar a amortecer a desaceleração do consumo, a recente moderação — combinada com um mercado de trabalho formal estagnado — sugere que os gastos das famílias devem permanecer contidos ao longo do restante do ano.

Esse cenário é consistente com nossa expectativa de uma segunda metade mais fraca, e mantemos nossa projeção de crescimento do PIB de 0,5% em 2025, sustentada principalmente pela resiliência da demanda externa, em especial dos Estados Unidos.

Inflação e política monetária

Em setembro, a inflação cheia subiu para 3,76% em termos interanuais, em linha com as expectativas (3,79%). A inflação subjacente permaneceu resistente, avançando para 4,28% em termos interanuais, refletindo pressões persistentes nos serviços e uma normalização gradual dos preços de bens em direção às médias históricas. Esse patamar representa o nível mais elevado desde maio de 2024, quando a inflação subjacente estava em 4,31%, reforçando nossa avaliação de que ela permanecerá elevada até o final do ano.

O forte crescimento dos salários reais — 3,3% interanual em termos reais — continua sustentando essa tendência, especialmente no setor de serviços. Os resultados positivos da inflação seguem sendo explicados principalmente pelos componentes mais voláteis. Em setembro, a inflação não subjacente subiu para 2,02%, ante 1,38%, mas permanece bem abaixo da média histórica de 5,9%. Essa alta foi impulsionada por efeitos de base favoráveis e pela continuidade do processo de desinflação em itens voláteis, como produtos agrícolas e energia. Em termos mensais, a inflação cheia avançou 0,23%, abaixo do consenso (0,27%), enquanto a inflação subjacente subiu 0,33%, em linha com as expectativas (0,32%).

Política fiscal e cenário político

O orçamento federal de 2026 segue em discussão no Congresso, mas não se esperam mudanças relevantes em relação à proposta original do Ministério da Fazenda. Dada a maioria parlamentar do partido governista, tanto a Lei de Receitas quanto o Orçamento de Despesas devem ser aprovados sem dificuldades e dentro dos prazos — 20 de outubro e 15 de novembro, respectivamente. O arcabouço fiscal proposto mantém o compromisso do governo com a redução do déficit fiscal nos próximos anos, ao mesmo tempo em que preserva gastos sociais e de infraestrutura.

No campo político, o ambiente permanece amplamente estável. As discussões iniciais sobre a revisão do USMCA já começaram, com reuniões preliminares entre as delegações comerciais ocorrendo sem intercorrências. Embora o ex-presidente Trump tenha mencionado recentemente sua preferência por negociações bilaterais com México e Canadá, o Ministério da Economia do México, liderado por Marcelo Ebrard, reiterou seu compromisso com uma abordagem trilateral. Nosso cenário-base segue assumindo que um acordo trilateral será alcançado até o final de 2026, o que seria um desfecho construtivo para as perspectivas e para a economia mexicana.

Tradução feita por inteligência artificial (IA)