Perspectivas Econômicas da América Latina – Agosto 2026

19/08/2026

Principal Asset Management

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Cenário global e implicações para a América Latina

As perspectivas globais continuam apontando para um crescimento econômico resiliente e uma inflação persistente. O conflito no Oriente Médio permanece, e seu possível impacto sobre os preços e a política monetária continua sendo o principal vetor das perspectivas econômicas. Até o momento, porém, a atividade econômica tem se mantido relativamente resiliente e, caso os preços do petróleo permaneçam próximos aos níveis atuais, sua contribuição para a inflação deverá diminuir gradualmente nos próximos meses, embora os desdobramentos provavelmente continuem divergindo entre as regiões.

Nos Estados Unidos, a atividade econômica permanece sólida, com crescimento do PIB projetado em cerca de 2,2% em 2026 e 2,0% em 2027, ambos acima do potencial. O crescimento é sustentado pelo consumo resiliente e pela continuidade dos investimentos relacionados à inteligência artificial. Espera-se que o choque energético tenha apenas impacto modesto sobre a economia. O mercado de trabalho segue saudável: embora a criação de empregos tenha ficado abaixo do esperado, as demissões permanecem limitadas e o crescimento dos salários continua desacelerando, contribuindo para reduzir as pressões inflacionárias. Além disso, a inflação de julho desacelerou em linha com as expectativas, apoiada pela queda dos preços do petróleo e pela moderação contínua dos custos de moradia. A inflação subjacente permaneceu estável, sugerindo, até o momento, repasse limitado aos preços.

À frente, espera-se que a inflação permaneça acima da meta ao longo de 2026, embora as expectativas inflacionárias continuem bem ancoradas. Após os dados recentes, o mercado passou a projetar uma elevação da taxa de juros ainda neste ano, com a expectativa sendo deslocada de setembro para outubro. Em contrapartida, nosso cenário-base prevê que o Federal Reserve mantenha as taxas de juros inalteradas ao longo do ano. Por fim, a incerteza em torno da trajetória da política monetária continua sendo um risco relevante para as economias latino-americanas.

Na Europa, a atividade econômica apresenta sinais de recuperação após um primeiro semestre fraco e o impacto do choque energético. O Banco Central Europeu continua adotando uma postura monetária restritiva, embora a atividade tenha demonstrado alguma resiliência. Essa tendência, no entanto, ainda depende significativamente da evolução do conflito no Oriente Médio. Na Ásia, a maioria das economias continua apresentando resiliência tanto na atividade doméstica quanto nas exportações. Os dados da China apontam para uma economia estável, com exposição relativamente limitada aos riscos energéticos do Oriente Médio, em razão da disponibilidade de fornecedores alternativos.

Para a América Latina, as expectativas de crescimento permanecem, em linhas gerais, estáveis. Contudo, a economia brasileira apresenta sinais de moderação gradual, e as projeções de crescimento para 2027 exibem um leve viés de baixa, diante da expectativa de redução do apoio fiscal. No Chile e no México, espera-se uma aceleração moderada da atividade econômica no segundo semestre, com maior intensidade em 2027.

A inflação recuou em toda a região, mas as expectativas permanecem desancoradas no Brasil. Nesse contexto e diante da persistente incerteza global, os bancos centrais provavelmente atuarão com cautela, condicionando as próximas decisões à evolução dos dados. Entre os principais riscos regionais estão a incerteza em torno da revisão do USMCA, a volatilidade dos preços das commodities, a menor demanda doméstica na China, o possível impacto do fenômeno El Niño sobre a atividade econômica e a inflação, e as eleições presidenciais brasileiras de 2026, que poderão elevar a incerteza fiscal e a volatilidade dos mercados.

Brasil

Atividade econômica e inflação

Em relação à inflação, o IPCA de julho ficou ligeiramente acima das expectativas do mercado. Ainda assim, o resultado não altera de forma relevante a recente avaliação de melhora da dinâmica inflacionária. A leitura mensal manteve um perfil qualitativo amplamente construtivo, em um contexto marcado por uma sequência de surpresas baixistas nos últimos meses. Em particular, as medidas de inflação subjacente continuaram perdendo força, com os núcleos de inflação e a inflação de serviços apresentando novos sinais de moderação.

Nesse contexto, o balanço de riscos inflacionários de curto prazo parece mais equilibrado do que há alguns meses. De um lado, o ambiente cambial mais estável abre espaço para uma perspectiva mais favorável para os preços dos bens comercializáveis. De outro, permanecem riscos altistas relevantes. Os preços do petróleo continuam apresentando elevada volatilidade, enquanto choques climáticos associados ao fenômeno El Niño ainda podem gerar efeitos adversos sobre os preços dos alimentos. Assim, embora a evolução recente da inflação tenha se tornado mais favorável, a incerteza em relação à trajetória de médio prazo permanece significativa.

No que se refere à atividade, o fluxo mais recente de dados reforçou a percepção de que a economia vem perdendo impulso gradualmente. Os indicadores recentes surpreenderam negativamente e estão cada vez mais alinhados a um cenário de moderação. À frente, ganhou relevância o debate sobre as perspectivas de crescimento para 2027. A atividade econômica neste ano ainda se beneficia de apoio fiscal considerável, mas parte desses vetores favoráveis deverá perder força no próximo ano. Isso gera um leve viés de baixa para as projeções de crescimento, à medida que os impulsos fiscais tendem a diminuir e as condições monetárias permanecem significativamente restritivas. Embora uma recessão acentuada não faça parte de nosso cenário-base, o conjunto das evidências sugere que uma desaceleração gradual da atividade se torna cada vez mais provável ao longo do horizonte de política monetária.

Política monetária

No campo político, as eleições presidenciais continuam no centro das atenções. Pelo lado do governo, o anúncio de medidas econômicas beneficiou setores específicos da economia, com ênfase especial na expansão do crédito. Ao mesmo tempo, a campanha de Flávio Bolsonaro enfrenta atualmente falta de organização. Após a repercussão negativa do áudio vazado envolvendo Daniel Vorcaro, a escalada das tensões dentro da própria família Bolsonaro evidenciou a dificuldade de conter os efeitos adversos sobre a campanha. Ainda assim, ambos os candidatos seguem apresentando elevados índices de rejeição, o que sugere uma disputa potencialmente acirrada e volátil durante o período eleitoral de outubro.

No âmbito fiscal, as atenções estarão voltadas às propostas apresentadas por ambos os candidatos, em um contexto de elevada dívida pública e déficits fiscais persistentes.

Contas fiscais e cenário político

Paralelamente ao debate sobre política monetária, as eleições presidenciais de 2026 continuam no centro das atenções dos investidores. Pelo lado do governo, o foco tem se deslocado cada vez mais para possíveis sinalizações de política econômica em uma eventual nova administração. Julho foi marcado por comentários de integrantes da equipe econômica sugerindo que algum tipo de ajuste fiscal poderia ser considerado em um futuro mandato. Embora essas declarações ainda sejam amplas e pouco detalhadas, provavelmente ganharão relevância como primeiros indícios do arcabouço fiscal e da orientação política para além da atual administração. Na oposição, Flávio Bolsonaro continuou consolidando sua posição como principal candidato. Apesar das controvérsias recentes relacionadas a disputas familiares e sinais de isolamento político, as pesquisas de opinião ainda apontam para uma base expressiva de apoio que o mantém competitivo, limitando o espaço para o surgimento de uma alternativa viável de terceira via. Ainda assim, diante dos elevados índices de rejeição enfrentados pelos dois principais candidatos, a disputa permanece bastante aberta e vulnerável a eventos capazes de alterar rapidamente o cenário político.

Chile

Atividade econômica

O Imacec de junho cresceu 2,4% na comparação anual, recuperando-se da contração de 0,9% registrada em maio e superando amplamente as expectativas do mercado. O índice com ajuste sazonal avançou 0,6% em relação ao mês anterior, sugerindo que a atividade retomou impulso após um primeiro semestre marcado por interrupções pelo lado da oferta. Embora parte da força tenha sido sustentada por efeitos favoráveis de calendário, o resultado aponta para uma melhora moderada das condições econômicas.

O crescimento foi impulsionado principalmente pela recuperação da atividade de mineração, especialmente pela maior produção de cobre, além do desempenho sólido do comércio e dos serviços. Em contrapartida, a indústria de transformação permaneceu fraca, refletindo a menor produção no processamento de pescados, enquanto a construção continuou apresentando dinamismo limitado.

Sob uma perspectiva macroeconômica, os dados sugerem que a economia está se afastando gradualmente da fraqueza observada no início do ano, apoiada pela melhora da produção de mineração e por uma demanda doméstica mais firme. A recuperação, contudo, permanece desigual, com a indústria de transformação e a construção ainda defasadas. Em conjunto, os números são compatíveis com uma melhora gradual da atividade ao longo do segundo semestre, embora o crescimento ainda dependa de uma recuperação mais abrangente entre os setores e enfrente desafios decorrentes do ambiente externo e da inflação.

Inflação e política monetária

A inflação de julho avançou 0,1% em relação ao mês anterior, elevando a inflação acumulada no ano para 2,9% e a taxa em doze meses para 3,5%. O resultado ficou em linha com as expectativas do mercado e confirma a tendência de moderação observada nos últimos meses.

As pressões inflacionárias no mês vieram principalmente dos custos de alimentos, energia elétrica e aluguel. Esses aumentos, contudo, foram amplamente compensados por uma queda significativa nos preços dos combustíveis, que levou o componente de transportes a recuar 3,5% frente ao mês anterior. Assim, a redução dos preços da gasolina e do diesel foi o principal fator por trás da baixa inflação registrada em julho.

A inflação subjacente, por sua vez, permaneceu relativamente firme. O índice subjacente, que exclui itens voláteis, avançou 0,5% em relação ao mês anterior, indicando que as pressões de preços nos componentes mais persistentes da cesta de consumo continuam presentes, apesar da moderação da inflação cheia.

Quanto à política monetária, o relatório de inflação de julho permanece, em linhas gerais, compatível com as perspectivas de médio prazo do Banco Central. Embora a inflação anual de 3,5% ainda esteja acima da meta de 3% e as projeções recentes indiquem uma convergência um pouco mais lenta, os dados mais recentes não alteram de forma significativa o cenário para a política monetária. Enquanto as pressões inflacionárias subjacentes permanecerem contidas e o processo de desinflação prosseguir, o ambiente deverá continuar favorecendo um ciclo gradual de flexibilização, abrindo potencialmente espaço para uma nova redução da taxa de juros no próximo ano, apesar da incerteza em torno do cenário externo.

Contas fiscais e cenário político

Durante julho e o início de agosto, o debate político e fiscal chileno foi dominado pelo projeto de Lei de Reconstrução Nacional e Desenvolvimento Econômico e Social, principal pacote de reformas pró-crescimento do governo. O Senado aprovou suas principais medidas por margem estreita em meados de julho, e o Congresso concluiu a etapa legislativa principal em 4 de agosto. A reforma reduz gradualmente a alíquota do imposto corporativo de 27% para 23% até 2029, restabelece um sistema tributário totalmente integrado e cria acordos de estabilidade fiscal de longo prazo para grandes projetos de investimento. Outras medidas incluem incentivos à repatriação de ativos, apoio ao setor da construção e financiamento para as regiões afetadas por incêndios florestais.

A aprovação representa uma importante vitória política para o governo Kast e reforça sua agenda favorável aos investimentos. Ainda assim, persiste a incerteza, pois o governo apresentou vetos a várias disposições não essenciais e o Tribunal Constitucional analisa contestações da oposição relacionadas ao regime de estabilidade fiscal e aos aspectos ambientais do projeto. Assim, embora a direção da política fiscal esteja mais clara, alguns detalhes de implementação permanecem pendentes.

No âmbito fiscal, o Relatório de Finanças Públicas de julho mostrou melhora das perspectivas de curto prazo, sustentada por maiores receitas da mineração e maior contenção de despesas. Ainda assim, permanecem desafios fiscais de médio prazo, com a dívida projetada para se aproximar e, posteriormente, superar o limite prudencial de 45% do PIB estabelecido pelo governo, considerando os atuais compromissos de gastos. O Conselho Fiscal Autônomo também alertou que o custo fiscal das reduções tributárias é mais certo e imediato do que os possíveis ganhos de crescimento. Consequentemente, os investidores continuarão atentos à materialização de investimentos privados mais robustos e à suficiência da disciplina fiscal para preservar a sustentabilidade da dívida no médio prazo e o perfil de crédito soberano do Chile.

México

Atividade econômica

A atividade econômica se recuperou no segundo trimestre de 2026, com crescimento do PIB de 1,5% frente ao trimestre anterior e de 2,1% na comparação anual, revertendo integralmente a contração observada no início do ano. O resultado confirma que a fraqueza do primeiro trimestre de 2026 não evoluiu para uma recessão persistente e sustenta uma perspectiva um pouco mais construtiva. Contudo, a recuperação foi impulsionada principalmente pela resiliência do comércio, pela maior demanda externa e por uma retomada parcial da indústria e da construção, além de efeitos favoráveis concentrados em março e abril, e não por um impulso amplo associado à Copa do Mundo. A recuperação foi disseminada entre os setores, embora a composição mensal tenha permanecido desigual, com a indústria sendo o único grande segmento a ainda registrar crescimento significativo em junho.

No mercado de trabalho, a taxa de desemprego permanece abaixo de 3%, indicando condições ainda apertadas. No entanto, a fraqueza da atividade em termos gerais tem afetado o emprego por meio do aumento da informalidade, enquanto a criação de postos de trabalho formais continua estagnada.

Mantemos nossa projeção de crescimento de 1,3% para 2026, embora a atividade provavelmente permaneça irregular ao longo do segundo semestre, uma vez que a incerteza tarifária, a revisão do USMCA e a cautela do investimento privado continuam limitando o ritmo de expansão.

Inflação e política monetária

A inflação de julho confirmou um cenário benigno. O índice cheio avançou 0,03% no mês, reduzindo a taxa anual para 3,12%, ante 3,37% em junho, e registrando uma das menores leituras para julho da série histórica. A inflação não subjacente continua sendo a principal fonte de alívio, embora sua contribuição desinflacionária esteja perdendo força. Os preços não subjacentes recuaram 0,67% no mês, levando a inflação anual desse componente a 0,29%, ante 1,11% em junho. A inflação subjacente, por outro lado, deve continuar sendo o principal motivo de cautela: o índice subjacente avançou 0,23% no mês, enquanto a taxa anual caiu para 3,95%, ante 4,03%. Entretanto, os preços acumularam alta de 2,24% até junho, ritmo historicamente compatível com uma inflação anual superior a 4,0% no fim do ano. Isso justifica acompanhamento próximo, uma vez que o alívio recente da inflação cheia decorreu, em grande medida, de categorias voláteis não subjacentes.

Nesse contexto, o Banxico manteve a taxa básica de juros inalterada em 6,50%, em decisão unânime. A orientação futura permaneceu sem alterações diante de um ambiente inflacionário mais favorável, embora persistam pressões subjacentes e a atividade continue moderada. Em conjunto, o comunicado reforça nossa expectativa de que o Banxico permanecerá em pausa por um período prolongado. Ainda assim, os cortes poderão ser retomados no fim do ano, caso o processo de desinflação prossiga e o crescimento permaneça fraco.

Política fiscal e cenário político

México e Estados Unidos estão preparando uma nova rodada de revisão do USMCA para o início de setembro, deslocando o debate para segurança econômica, regras de origem e cadeias de suprimentos estratégicas. As autoridades mexicanas buscam eliminar as tarifas da Seção 232 sobre automóveis, aço e alumínio, ao mesmo tempo que contestam a investigação da Seção 301 de Washington sobre “excesso de capacidade”. Assim, a agenda se amplia para além do mecanismo de revisão anual e passa a abranger os setores mais sensíveis para os exportadores mexicanos. Esse resultado mantém o processo construtivo e evita interrupções nos fluxos comerciais, com a maior parte das exportações mexicanas ainda se beneficiando de acesso isento de tarifas. Avanços nos setores automotivo e de metais poderiam reduzir a incerteza e apoiar os investimentos antes das eleições de meio de mandato dos Estados Unidos em 2026, embora o cronograma continue desafiador e o resultado, incerto.

No campo fiscal, as contas públicas até junho de 2026 apresentam um quadro misto. Os saldos agregados vieram melhores do que o previsto: o déficit orçamentário de aproximadamente MXN 577 bilhões no primeiro semestre de 2026 ficou bem abaixo dos cerca de MXN 937 bilhões orçados, apoiado pela forte arrecadação do IVA — alta real de 10,6% — e por maiores receitas tributárias associadas às importações. Ao mesmo tempo, a relação dívida/PIB recuou para perto de 51% com a recuperação do PIB no segundo trimestre. Sob a superfície, contudo, o quadro é menos favorável: o déficit do primeiro semestre foi aproximadamente 24% superior ao do ano anterior, as receitas orçamentárias permaneceram praticamente estáveis em termos reais e a arrecadação do imposto de renda caiu 6,2% em termos reais, em meio à fraqueza da atividade e do mercado de trabalho. Como o ajuste tem recaído em grande medida sobre o investimento público, mesmo com o aumento das despesas correntes, algumas agências questionaram a viabilidade da meta de superávit primário para o fim do ano e apontaram o risco de o déficit superar 4,0% do PIB. Em síntese, as contas continuam compatíveis com a trajetória nominal de consolidação, mas a fragilidade subjacente das receitas justifica monitoramento atento ao longo do segundo semestre.

Autores:

Carlos Bautista – Gerente Sênior de Research para a América Latina

Gabriela Saavedra – Analista Sênior de Research Multiativos

Rodrigo Ashikawa – Economista para o Brasil

Úrsula Contardo – Analista de Renda Fixa e Alocação de Ativos

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