América Latina – Um ano eleitoral decisivo

30/01/2026

Principal Asset Management

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Ao longo de 2025, as principais economias da América Latina conseguiram atravessar um período marcado por tensões comerciais crescentes e elevada incerteza global. Além de a região ter permanecido, em grande parte, pouco afetada pelas pressões tarifárias dos Estados Unidos — com exceção do Brasil —, termos de troca favoráveis e um mercado de trabalho ainda apertado sustentaram o consumo e explicaram a resiliência da atividade econômica ao longo do ano. As principais economias da região devem crescer acima de 2% em 2025 e, embora o México apresente uma expansão mais modesta, de cerca de 0,5%, uma recessão foi evitada, com revisões para cima ocorrendo nos últimos meses.

A inflação na região foi beneficiada por um processo sincronizado de flexibilização monetária global e por um dólar mais fraco, o que fortaleceu as moedas locais e sustentou uma tendência relevante de desinflação nos últimos meses. Com exceção do Brasil, a maioria dos bancos centrais contou com espaço para reduzir as taxas de juros.

Em 2026, o cenário se altera. Enquanto se espera uma aceleração do PIB no México, a maior parte da região deverá enfrentar um crescimento mais lento. Com a atividade econômica projetada abaixo do potencial, o Brasil se destaca como o único país com espaço significativo para cortes de juros. Nos demais casos, a persistência da inflação subjacente limita o escopo de flexibilização monetária, e a trajetória do México dependerá em grande medida das decisões de política monetária do Federal Reserve.

Cenário Fiscal e Eleitoral na América Latina

No campo fiscal, preocupações históricas com a sustentabilidade das contas públicas permanecem. Ainda assim, um calendário eleitoral carregado nos próximos trimestres cria uma oportunidade para iniciar mudanças de política necessárias, especialmente no âmbito de reformas estruturais e da gestão fiscal. Eleições no Chile, Peru, Colômbia e Brasil ocorrerão ao longo dos próximos 12 meses e moldarão o cenário regional. No México, o ambiente também dependerá do desfecho e do cronograma das negociações em torno do USMCA.

Brasil

Ciclo de flexibilização prestes a começar, mas eleições moldarão o cenário

Em 2025, o panorama econômico do Brasil foi marcado por elevada volatilidade e incerteza, ainda que o ano possa ser claramente dividido em duas fases distintas.

A primeira fase, no início do ano, foi dominada pelos efeitos remanescentes do debate fiscal de 2024, em especial pelas crescentes dúvidas quanto à sustentabilidade do arcabouço fiscal, o que levou o USDBRL a patamares historicamente elevados. Ao mesmo tempo, a atividade econômica permaneceu surpreendentemente forte, sustentada por um crescimento sólido e por um mercado de trabalho apertado. Com as expectativas de inflação se afastando da meta de 3%, o Banco Central foi obrigado a interromper o ciclo de flexibilização e retomar o aperto monetário, elevando a taxa básica para 15%. Adicionalmente, o ruído político se intensificou, impulsionado tanto pelas ameaças tarifárias do presidente Trump quanto pela volatilidade eleitoral antecipada da corrida de 2026, que passou a reintroduzir prêmios de risco político nos ativos domésticos.

Mais recentemente, contudo, os efeitos dos juros elevados começaram a se materializar nos dados domésticos, com sinais iniciais de desaceleração econômica aparecendo em indicadores de crédito e confiança. Ao mesmo tempo, apesar do aumento da incerteza política, o USDBRL apresentou comportamento relativamente benigno, apoiado por um enfraquecimento mais amplo do dólar, o que ajudou a aliviar as pressões iniciais sobre o câmbio. Nessas condições, o cenário inflacionário de curto prazo melhorou de forma significativa na segunda metade do ano. A inflação ao consumidor deve encerrar 2025 abaixo de 5%, aproximando-se do limite superior do intervalo da meta (4,5%). A apreciação do real também tem contribuído para uma forte desinflação do IGP-M, que deve recuar de 6,5% em 2024 para níveis provavelmente inferiores a 2% em 2025. Esse ambiente macroeconômico mais construtivo permitiu ao Banco Central encerrar o ciclo de aperto monetário e entrar em uma fase de avaliação, concentrando-se nos efeitos defasados da política monetária.

Olhando para 2026, esperamos que o cenário seja determinado pelo equilíbrio entre o ritmo da desaceleração econômica e o momento de início do ciclo de flexibilização monetária. Paralelamente, o ambiente político ganhará relevância crescente ao longo do ano, com a eleição presidencial se consolidando como o principal evento no final do período.

Após vários anos em que o PIB surpreendeu positivamente e operou acima do potencial, projetamos uma desaceleração moderada, com o crescimento recuando de 2,3% em 2025 para 1,6% em 2026. No campo inflacionário, a sequência recente de surpresas favoráveis sugere um balanço de riscos levemente inclinado para baixo no próximo ano. Ainda que o mercado de trabalho apertado mantenha a inflação de serviços em níveis elevados, um ambiente global de dólar mais fraco tende a sustentar a apreciação do real, reduzindo pressões sobre os componentes tradables do IPCA. Para 2026, projetamos inflação ao final do ano em 3,9%.

Nesse contexto, avaliamos que o Banco Central terá espaço para iniciar cortes de juros já no primeiro trimestre de 2026. Dependendo da velocidade do arrefecimento da atividade e da desinflação, há inclusive espaço para um ciclo de flexibilização mais profundo do que o cenário-base atual, que contempla uma taxa Selic de 13,0% ao final do ano. O principal risco para esse cenário decorre da volatilidade política associada às eleições, especialmente a possibilidade de medidas fiscais voltadas a elevar a popularidade do governo, o que poderia comprometer a credibilidade do arcabouço fiscal.

Chile

Melhora do sentimento e mudança política, mas desafios de execução permanecem

A economia chilena avançou de forma relevante rumo à normalização em 2025, encerrando o ano com uma das combinações mais equilibradas de crescimento e inflação dos últimos anos. Pressões inflacionárias residuais no início do ano cederam gradualmente à medida que o peso se fortaleceu, os custos de energia e alimentos recuaram e a demanda se estabilizou. Ao longo do ano, a inflação convergiu para a meta de 3% do Banco Central, restaurando a confiança de famílias, empresas e mercados financeiros.

A atividade econômica também superou as expectativas, sustentada por uma demanda doméstica resiliente, consumo privado robusto, serviços fortes e um fluxo excepcional de turismo argentino no início do ano. A mineração voltou a ganhar tração com a normalização da produção e o avanço de grandes projetos. Apesar da volatilidade nos indicadores mensais, a tendência subjacente apontou para maior previsibilidade macroeconômica.

Nem todos os indicadores evoluíram positivamente. O mercado de trabalho perdeu fôlego, com o desemprego encerrando o ano próximo de 8,7%, refletindo custos mais elevados associados a reformas trabalhistas, aumento do salário mínimo e redução da jornada legal. Ao mesmo tempo, a dívida pública deve fechar 2025 em torno de 42% do PIB, reacendendo o debate sobre sustentabilidade fiscal.

Ainda assim, a combinação de desinflação, atividade resiliente e mudança no cenário político sustentou a melhora do sentimento, com crescimento do PIB estimado em 2,5% e inflação próxima de 3,6% ao final de 2025. Para 2026, projeta-se expansão de 2,1%, inflação em torno de 3,1% e taxa de política monetária convergindo para 4,25%, em um contexto de maior neutralidade.

México

Revisão do USMCA será chave para destravar o investimento

O México entra em 2026 após evitar a recessão que parecia quase inevitável no início de 2025. Apesar de um ambiente adverso — marcado por desaceleração global, incerteza política e necessidade de consolidação fiscal —, a economia demonstrou resiliência. As isenções tarifárias do USMCA protegeram as exportações mexicanas e permitiram ganho de participação no mercado americano, especialmente fora do setor automotivo.

Ainda assim, os fatores que pesaram sobre a atividade deixaram marcas. A consolidação fiscal afetou o investimento público, enquanto a incerteza limitou o investimento privado. Dados recentes indicam fraqueza no segundo semestre, mas também estabelecem as bases para uma recuperação gradual em 2026. O mercado de trabalho começa a sinalizar esse ponto de inflexão, com melhora na criação de empregos formais e salários sustentando a renda das famílias.

Para 2026, projetamos uma recuperação moderada da atividade, com crescimento do PIB em torno de 1,3%. O principal risco permanece associado à revisão do USMCA, que adiciona incerteza temporária ao ambiente de investimentos. No campo inflacionário, após uma melhora relevante em 2025, os riscos para 2026 estão levemente inclinados para cima, refletindo aumentos do salário mínimo, impostos seletivos e possíveis tarifas adicionais.

Nesse cenário, o Banxico, após cortes expressivos em 2025, deve adotar uma postura mais cautelosa em 2026, com a taxa básica encerrando o ano próxima de 6,5%.

Tradução feita por inteligência artificial (IA)