Perspectivas Econômicas da América Latina – Julho 2026

22/07/2026

Principal Asset Management

Compartilhe este artigo:

Cenário global e implicações para a América Latina

A perspectiva global continua apontando para um crescimento econômico resiliente e uma inflação mais persistente. O conflito no Oriente Médio permanece como o principal fator impulsionador do cenário econômico e, até o momento, a atividade econômica tem se mantido resiliente. Se os preços do petróleo permanecerem próximos aos níveis atuais, seu impacto altista sobre a inflação deverá desaparecer gradualmente nos próximos meses, embora diferenças entre regiões provavelmente persistam.

Nos Estados Unidos, a atividade econômica continua resiliente, com crescimento do PIB esperado em torno de 2,2% em 2026 e 2,0% em 2027, ambos acima do potencial, sustentados por um consumo estável e pela continuidade dos investimentos relacionados à inteligência artificial. Espera-se que o choque energético gere apenas um impacto moderado sobre a economia. O mercado de trabalho permanece saudável. Embora a criação de empregos tenha ficado abaixo das expectativas, as demissões seguem contidas e o crescimento dos salários continua moderando, ajudando a aliviar as pressões inflacionárias. A inflação surpreendeu para baixo em junho, principalmente devido aos menores preços do petróleo, enquanto a inflação subjacente permaneceu relativamente estável, sugerindo um efeito de repasse limitado até o momento.

Olhando para frente, espera-se que a inflação permaneça acima da meta ao longo de 2026, embora as expectativas inflacionárias continuem bem ancoradas. No entanto, os mercados seguem esperando que o Fed realize aumentos adicionais de juros nos próximos meses, após o tom mais hawkish adotado pelo presidente Kevin Warsh na última reunião do FOMC. Como resultado, os riscos de alta para as taxas de juros permanecem elevados. Consequentemente, a trajetória da política monetária continua sendo um fator-chave para os ativos e as economias da América Latina.

Em outras regiões, a Europa está entre as economias mais afetadas pelo choque energético, apresentando sinais de atividade mais fraca e inflação mais alta, o que levou o BCE a continuar apertando a política monetária. Na Ásia, a maioria das economias continua demonstrando resiliência tanto na atividade doméstica quanto nas exportações. Os dados da China apontam para uma economia estável, com inflação aumentando gradualmente e dependência relativamente limitada da energia do Oriente Médio devido à disponibilidade de fontes alternativas de energia.

Para a América Latina, as expectativas de crescimento permanecem amplamente estáveis, sustentadas pela resiliência da atividade no Brasil e pela melhora do dinamismo no México, embora o Chile continue enfrentando uma recuperação mais lenta e desigual. A dinâmica inflacionária segue mista, com a desinflação em curso no México contrastando com expectativas inflacionárias ainda desancoradas no Brasil, apesar do alívio proporcionado pelos menores preços do petróleo. Como resultado, é provável que os bancos centrais mantenham uma postura cautelosa em relação a novos cortes de juros. Entre os principais riscos para a região estão a incerteza em torno da revisão do USMCA, a volatilidade dos preços das commodities, uma demanda doméstica mais fraca na China que pode afetar as exportações de commodities e as próximas eleições presidenciais no Brasil, que podem aumentar a incerteza fiscal e de mercado.

Brasil
Atividade Econômica

A atividade econômica continua resiliente. O mercado de trabalho permanece apertado, com a taxa de desemprego próxima de mínimas históricas e apresentando poucos sinais claros de reversão. Além disso, os indicadores de crescimento continuam robustos. O índice IBC-Br avançou 0,5% em abril na comparação mensal, após uma queda de 0,2% no período anterior. Na média móvel trimestral, o PIB mensal cresceu 0,3%, ainda um resultado sólido.

Olhando para frente, os estímulos econômicos devem continuar sustentando a demanda no curto prazo, compensando os efeitos da política monetária restritiva. Esse conjunto de fatores reforça as expectativas de uma desaceleração muito gradual da economia brasileira.

Inflação e Política Monetária

No campo inflacionário, por um lado, o balanço de riscos para o curto prazo voltou a ficar mais equilibrado, uma vez que a queda mais sustentada dos preços do petróleo pode proporcionar algum alívio para a inflação cheia nos próximos meses. Por outro lado, a contínua desancoragem das expectativas de inflação, especialmente nos horizontes mais longos, representa desafios para a condução da política monetária daqui para frente.

Nesse contexto, o Banco Central optou por continuar seu ciclo de afrouxamento monetário, promovendo um corte de 25 pontos-base na taxa Selic (para 14,25%), mas sua comunicação em relação aos próximos passos foi um tanto confusa. Em seu comunicado, o Banco Central reconheceu a deterioração das perspectivas econômicas, destacando a força da atividade econômica e a contínua desancoragem das expectativas de inflação. No entanto, apesar dessa avaliação mais hawkish, justificou o corte de juros com projeções mais baixas de inflação, reiterando que choques de oferta tendem a ser temporários.

Olhando para frente, acreditamos que o balanço de riscos de curto prazo ainda pode sustentar um ou dois cortes adicionais de juros. Entretanto, o espaço geral para o ciclo de afrouxamento está se tornando cada vez mais limitado, pois, além da contínua desancoragem das expectativas de inflação, os estímulos fiscais e um mercado de trabalho apertado continuam sustentando um crescimento econômico acima de seu potencial.

Contas fiscais e cenário político

No campo político, a eleição presidencial continua no centro das atenções. Do lado do governo, o anúncio de medidas econômicas vem apoiando setores específicos da economia, com destaque para a expansão do crédito. Ao mesmo tempo, a campanha de Flávio Bolsonaro enfrenta atualmente problemas de organização. Após a repercussão negativa do áudio vazado envolvendo Daniel Vorcaro, a escalada das tensões dentro da própria família Bolsonaro evidenciou a dificuldade de conter os efeitos adversos sobre a campanha. Ainda assim, ambos os candidatos continuam enfrentando altos índices de rejeição, sugerindo uma disputa potencialmente acirrada e volátil até o período eleitoral de outubro.

No campo fiscal, a atenção estará voltada para as propostas fiscais apresentadas pelos dois candidatos, em um contexto de elevada dívida pública e persistentes déficits fiscais.

Chile
Atividade Econômica

O Imacec de maio registrou uma queda de 0,9% em relação ao mesmo período do ano anterior, ficando bem abaixo das expectativas do mercado. A série com ajuste sazonal recuou 0,2% em relação a abril e caiu 0,7% em doze meses, evidenciando uma economia que continua enfrentando dificuldades para recuperar o dinamismo, também impactada por um dia útil a menos do que no ano anterior.

O resultado foi impulsionado principalmente por uma contração na produção de bens, especialmente pela menor produção mineradora, em particular de cobre, e por uma atividade manufatureira mais fraca associada à redução do processamento de pescado. Em contrapartida, o restante da economia apresentou resiliência moderada, com comércio e serviços sustentando um crescimento de 0,7% do Imacec não minerador na comparação anual.

Sob uma perspectiva macroeconômica, os dados reforçam uma perda de dinamismo concentrada nos setores voltados à exportação, particularmente nas indústrias de recursos naturais, enquanto a demanda doméstica permanece relativamente resiliente. Em geral, os números apontam para uma recuperação gradual e desigual, com crescimento mais forte esperado para o segundo semestre do ano, à medida que a política monetária busca equilibrar uma atividade mais fraca diante de riscos inflacionários persistentes e da volatilidade externa.

Inflação e Política Monetária

O relatório de inflação de junho no Chile veio acima das expectativas, com o IPC permanecendo estável no mês (0,0% m/m), ante projeções de mercado de -0,2%. Apesar da surpresa altista, a tendência inflacionária mais ampla continua construtiva. A inflação anual ficou em 4,3%, enquanto a inflação acumulada no primeiro semestre atingiu 2,8%, reforçando a visão de que a inflação está convergindo gradualmente para a meta do Banco Central. Ao mesmo tempo, as expectativas de inflação implícitas no mercado permanecem bem ancoradas, fortalecendo a confiança nas perspectivas de médio prazo.

Sob a ótica da inflação subjacente, o relatório foi relativamente benigno. O resultado estável da inflação cheia refletiu movimentos compensatórios entre os componentes do IPC, destacando a ausência de pressões inflacionárias disseminadas. As medidas de inflação subjacente continuaram mostrando pressão limitada, sugerindo que, apesar de alguma persistência em determinados serviços e itens regulados, a demanda doméstica não está gerando impulso inflacionário significativo neste momento.

Para a política monetária, os dados de junho permanecem consistentes com a visão de médio prazo do Banco Central. Embora a inflação anual continue acima da meta de 3% e as projeções recentes indiquem um retorno um pouco mais lento à meta, o resultado mais recente não altera materialmente as perspectivas de política monetária. Enquanto as pressões subjacentes permanecerem contidas e a inflação continuar moderando, o ambiente deverá continuar favorável para um ciclo gradual de flexibilização monetária, potencialmente permitindo novos cortes na taxa de política monetária nos próximos trimestres.

Contas fiscais e cenário político

A discussão política e fiscal no Chile nas últimas duas semanas foi dominada pela aprovação, no Senado, do pacote de reforma econômica e tributária do governo. Após uma votação muito apertada, o Senado aprovou os principais componentes da proposta, incluindo uma redução gradual da alíquota do imposto corporativo de 27% para 23%, o restabelecimento do sistema tributário integrado e regras de estabilidade tributária de longo prazo para grandes projetos de investimento.

Em termos simples, o governo argumenta que impostos mais baixos e maior previsibilidade incentivarão as empresas a investir, criar empregos e apoiar o crescimento econômico. No entanto, a reforma ainda requer uma revisão final na Câmara dos Deputados, pois o Senado introduziu diversas alterações.

A aprovação representa uma importante vitória política para o governo, mas também intensificou o debate sobre a perspectiva fiscal do Chile. Críticos, incluindo parlamentares da oposição e observadores fiscais independentes, argumentam que a redução dos impostos corporativos pode diminuir significativamente a arrecadação do governo e dificultar o cumprimento das metas fiscais nos próximos anos. Os defensores da reforma acreditam que investimentos mais fortes e crescimento mais elevado compensarão parte dessa perda de receita. Como resultado, a atenção dos investidores permanece voltada para saber se a reforma conseguirá gerar uma melhora relevante da atividade econômica sem comprometer o controle da dívida pública e dos déficits fiscais. A próxima etapa no Congresso, juntamente com as futuras projeções fiscais do Ministério da Fazenda, será decisiva para determinar a confiança do mercado na sustentabilidade fiscal de médio prazo do Chile.

México
Atividade Econômica

A atividade econômica parece ter iniciado o 2T26 em uma posição mais sólida do que sugeria o fraco resultado do PIB do 1T26, já que os dados mais recentes apontam para uma desaceleração temporária, e não para uma deterioração generalizada. A demanda permaneceu resiliente, embora sua composição tenha sido menos favorável, com as importações absorvendo uma parcela maior dos gastos e os investimentos privados ainda limitados pela incerteza. O investimento público continuou fornecendo suporte, enquanto as exportações permaneceram resilientes. Os indicadores de atividade de abril reforçaram essa visão mais construtiva, com o IGAE surpreendendo positivamente devido aos ganhos disseminados na construção, manufatura, comércio atacadista e atividade varejista. No entanto, a confirmação dessa tendência dependerá da sustentação do dinamismo econômico e da redução da incerteza em torno do investimento privado e da revisão do USMCA.

Inflação e Política Monetária

A inflação voltou a surpreender para baixo em junho, reforçando a narrativa de desinflação e colocando a inflação cheia novamente dentro da faixa-meta do Banxico. O IPC cheio caiu 0,27% no mês, levando a taxa anual para 3,37%, frente a 3,94% em maio, impulsionado principalmente pelos componentes não subjacentes. A inflação não subjacente recuou de forma expressiva, apoiada pela queda dos preços agrícolas — especialmente frutas e verduras — e pela redução dos preços do gado.

A inflação subjacente também desacelerou para 4,03% na comparação anual, com melhora na dinâmica de bens favorecida pela valorização do peso e pelo repasse limitado de tarifas. No entanto, os alimentos continuam elevados e os serviços permanecem resistentes, embora as pressões de preços relacionadas à Copa do Mundo tenham sido mais contidas do que o esperado. No geral, os dados fortalecem o cenário de desinflação, mas o progresso rumo à meta de 3% ainda não está completo.

Nesse contexto, o Banxico manteve a taxa básica de juros inalterada em 6,50%, em decisão unânime, reforçando uma postura de cautela e observação. Embora a política monetária deva permanecer estável por ora, os cortes poderão ser retomados até o final do ano caso a desinflação continue e o crescimento econômico permaneça fraco.

Política Fiscal e Cenário Político

As negociações do USMCA entraram na fase formal de revisão, após a decisão dos Estados Unidos de não estender o acordo por mais dezesseis anos neste momento. Na primeira reunião trilateral realizada em 1º de julho, México e Canadá reiteraram seu apoio à extensão do acordo, enquanto os Estados Unidos sinalizaram preferência por continuar discutindo os temas pendentes. Como resultado, o acordo permanece em vigor até 2036, com as negociações prosseguindo sob o mecanismo de revisão anual.

Esse resultado esteve amplamente alinhado às expectativas e evita uma interrupção dos fluxos comerciais, com cerca de 85% das exportações mexicanas continuando a se beneficiar do acesso livre de tarifas. As discussões agora se concentrarão em setores-chave, especialmente o automotivo, além das tarifas sobre metais, do comércio agrícola e do papel da China nas cadeias de suprimento regionais. Olhando para frente, acordos específicos poderão reduzir a incerteza e apoiar os investimentos, especialmente antes das eleições legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos em 2026. No entanto, a falta de avanços em áreas críticas continua sendo o principal risco baixista para as perspectivas do México.

Principais Projeções para a América Latina (Key Latam Forecasts)